O silêncio quando os holofotes se apagam
O glitter sai da pele. A maquiagem desce pelo ralo. As fantasias voltam para a caixa. E, de repente, o barulho vira silêncio. O Carnaval no Brasil é mais do que festa. É vitrine. É palco. É exposição. Durante dias, corpos são celebrados, imagens são registradas, stories são publicados em ritmo acelerado. É intensidade, validação instantânea, pertencimento coletivo. Mas quando termina, algo fica. Para muitas mulheres, fica o vazio. A busca por validação em forma de fantasia Não se trata de criticar o Carnaval. Ele é cultura, expressão, alegria legítima. Em cidades como Rio de Janeiro e Salvador, ele é identidade.
O ponto é outro. Para muitas mulheres, estar lá não é só diversão. É comprovação. Comprovação de que o corpo está “em dia”.
De que ainda é desejada. De que é interessante. De que está vivendo “como deveria”. O feed vira um tribunal silencioso. As curtidas viram micro doses de validação. Os comentários funcionam como selo de aprovação. E no meio disso tudo, surge uma pergunta que quase ninguém verbaliza: “Se eu não aparecer, eu desapareço?”
A máscara que não é só de Carnaval. Durante os dias de festa, a máscara é literal. Fantasia, brilho, personagem. Mas o mais delicado é que essa máscara não cai na quarta-feira de cinzas. Ela continua. A máscara da mulher sempre animada. A máscara da mulher segura do próprio corpo. A máscara da mulher que “está bem”. A máscara da mulher que não sente solidão no meio da multidão. Por dentro, muitas estão exaustas. Exaustas de performar alegria. Exaustas de competir silenciosamente. Exaustas de se comparar.
O impacto emocional do “pós-folia”. Existe um fenômeno conhecido como “blues pós-evento”. Após períodos de alta estimulação emocional, o cérebro sofre uma queda brusca de dopamina. O contraste entre euforia e rotina pode gerar:
• Sensação de vazio
• Irritabilidade
• Ansiedade
• Tristeza sem causa clara
• Autocrítica intensa
• Comparação excessiva nas redes
Segundo a Organização Mundial da Saúde, transtornos de ansiedade estão entre os mais prevalentes no mundo, e o Brasil ocupa posição de destaque nesses índices. Eventos de alta exposição social podem intensificar sintomas já existentes. O Carnaval não cria a ansiedade. Mas pode amplificá-la. Quando o corpo vira currículo
Para muitas mulheres, o Carnaval também é sobre corpo. Dieta antes. Treino dobrado antes. Procedimentos antes. Existe uma pressão silenciosa para “estar pronta”. Como se o valor estivesse diretamente ligado à aparência naquele palco coletivo.
E depois? Depois vem a culpa por não ter sido “boa o suficiente”.
Ou o medo de que a validação tenha prazo de validade.
O vazio que ninguém posta
O que raramente vai para o feed é:
• A crise de ansiedade depois do bloco
• A solidão ao voltar para casa
• O sentimento de inadequação ao se comparar com outras mulheres
• A necessidade constante de provar que está feliz
Há mulheres que passam o ano inteiro sustentando essa performance. Não é só no Carnaval. É na empresa. No casamento. Na maternidade. Na roda de amigas. E quando ninguém está olhando, elas não sabem mais quem são sem aplauso.
Saúde mental não tira folga. Ansiedade não entende calendário festivo. Burnout emocional não respeita feriado. Quando a vida vira um palco constante, o sistema nervoso nunca descansa. O corpo permanece em estado de alerta, buscando aprovação, antecipando julgamento, medindo cada movimento. Isso tem custo: Insônia. Tensão muscular. Compulsão alimentar. Oscilação de humor. Sensação de nunca ser suficiente.
E se a verdadeira libertação não for tirar a fantasia, mas tirar a exigência? Talvez a pergunta mais honesta pós-Carnaval não seja: “Qual será o próximo evento?” Mas sim: “Por que eu preciso tanto ser vista para me sentir valiosa?” Existe uma diferença profunda entre celebrar e se provar. Celebrar é escolha. Se provar é sobrevivência emocional.
Uma reflexão necessária.
O Carnaval pode ser alegria legítima. Mas não pode ser a única fonte de validação. A mulher que precisa do palco para se sentir inteira provavelmente já estava se sentindo fragmentada antes da festa começar. Quando o silêncio chega depois da folia, ele não é o problema. Ele é convite. Convite para olhar para dentro. Para perceber que valor não é aplauso. Que pertencimento não depende de exposição. Que leveza não nasce da comparação. Talvez o maior ato de coragem não seja subir no trio. Seja descer da exigência de ser perfeita o ano inteiro.
Porque nenhuma fantasia pesa tanto quanto a obrigação de ser tudo para todos.
Por Tatiane Rolim – Terapeuta Emocional
